Ouro Preto evidenciou, em 2025, a trajetória negra do Brasil por meio da exposição “Ouro, Sangue e Suor”, que esteve em cartaz em dezembro, na Grande Mina — um espaço histórico marcado pela exploração de corpos negros escravizados e que, agora, se transforma em território de reflexão, reconhecimento e ressignificação.
A mostra, assinada pelo artista plástico Filipe Matias, utiliza a arte como instrumento político, social e memorial. As pinturas expostas convidam o público a revisitar o passado colonial brasileiro sob a perspectiva de quem o construiu com trabalho forçado, resistência e ancestralidade.
Quilombos: Territórios de Liberdade e Resistência
Os quilombos são temas centrais no conjunto da obra apresentada por Filipe Matias. Historicamente, os quilombos foram comunidades formadas por pessoas negras escravizadas que fugiam do sistema colonial e construíam espaços próprios de organização social, cultural, política e econômica. Mais do que refúgios, os quilombos simbolizam resistência coletiva, autonomia, preservação cultural e luta por liberdade.
No Brasil, essas comunidades se tornaram pilares da resistência negra e permanecem, até hoje, como territórios vivos de memória, identidade e reivindicação de direitos. Ao trazer os quilombos para o centro da narrativa artística, a exposição rompe com silêncios históricos e reafirma o protagonismo negro na construção do país.
Quando a Arte Endireita o Mundo
Filipe Matias percorreu importantes espaços culturais e acadêmicos, ampliando o alcance do debate sobre identidade, arte e cultura. Trabalhos como “Endireita Mundo – foi apresentado no saguão central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Além disso, Matias esteve na 2ª Bienal de Arquitetura da Zona da Mata Mineira, realizada no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), em Juiz de Fora, reforçando o diálogo, e em um movimento de internacionalização, a produção artística de Filipe Matias ultrapassou fronteiras e tendo produções na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA).
Entre Duas Raízes: Corpo, Família e Identidade
A obra de Filipe Matias também carrega uma dimensão profundamente pessoal. Filho de uma família marcada pela convivência entre origens negras e brancas, o artista transforma sua própria história em matéria-prima artística. O reconhecimento da identidade negra, especialmente mediado pela figura da avó — mulher negra e referência afetiva e ancestral, atravessa as telas e dá densidade emocional à exposição.
Essa vivência familiar se traduz em uma produção que não separa o íntimo do coletivo. Ao falar de si, Filipe fala de muitos; ao falar da própria família, fala da formação racial, social e histórica do Brasil.
Arte como Reparação, Memória como Futuro
Na simbólica Grande Mina de Ouro Preto, onde o passado ainda ecoa nas pedras e túneis, “Ouro, Sangue e Suor” transformou dor em narrativa, silêncio em voz e esquecimento em memória ativa. A exposição não apenas revisita a história: ela questiona, provoca e propõe novos olhares sobre o presente.
Ao unir quilombos, ancestralidade, território e identidade, a obra reafirma que arte também é política pública, educação histórica e ferramenta de justiça social. Uma experiência necessária para compreender o Brasil a partir de quem sempre esteve no centro da construção, mas à margem da narrativa oficial.
Uma exposição que não apenas se vê — se sente, se escuta e se aprende.
Texto: Cíntia Soares
Revisão: Greiza Tavares