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Confira o discurso do prefeito Angelo Oswaldo na cerimônia da Medalha da Inconfidência 2026

Senhor Governador do Estado, Autoridades, Homenageados, Senhoras e Senhores,

Sejam todos muito bem vindos. As boas vindas, na verdade, foram dadas a V. Exa. e ao Governo no domingo, dia 19, quando se realizou a transferência simbólica da Capital de Minas Gerais para Ouro Preto.

Hoje, Dia de Tiradentes e da Conjuração Mineira, impõe-se uma reflexão sobre os desafios da hora presente.

Há exato um ano, despedíamo-nos do Papa Francisco, e agora cumpre a cada um de nós uma palavra de solidariedade ao Papa Leão XIV pela defesa da paz e a condenação do belicismo imperialista. Criticaram Francisco por defender os pobres; criticam Leão por defender a paz.

O momento exige compromisso revigorado com a paz no mundo.

 

Senhor Governador,

Quando Juscelino Kubitschek criou o ritual do 21 de Abril em Ouro Preto, faz 74 anos, pensava o governador do Estado na força e no fulgor de Minas Gerais na história do Brasil e na vida pública nacional. Sucessor do imenso Milton Campos no Palácio da Liberdade, o ex-prefeito que o Estado Novo havia outorgado a Belo Horizonte parecia querer demonstrar que o compromisso democrático não seria privilégio de seus adversários político-partidários. Era também a sua bandeira.

E, por isso mesmo, JK tributava ao Tiradentes e aos Conjurados de 1789 o preito maior que se transformaria em manifestação desde então a cada ano renovada, muita vez sem o brilho da intenção inicial. Nos primeiros tempos, resplandeceu a consciência cidadã daquele que, três anos depois das festividades de 1952, seria eleito presidente da República e, no exato dia 21 de abril de 1960, entregaria ao Brasil a sonhada capital.

Há meio século morreu o presidente JK, e multidões ocuparam as ruas, sob o olhar severo da autoridade militar imperante, para a despedida do líder que não mais saiu do coração do povo brasileiro. Impedido de votar e ser votado, até para a Academia Brasileira de Letras, tornou-se o ex-voto da nossa democracia.

Juscelino Kubitschek sabia encontrar-se em Ouro Preto a melhor escola devotada às lições democráticas herdadas dos Inconfidentes e legadas pelos maiores de Minas, a verdadeira escola que é o Museu da Inconfidência, uma escola cívico-militante, que é a que interessa ao país. Se militarmos em favor de uma educação cívica lúcida, transparente e democrática, seguiremos a lição de Rui Barbosa, que nas eleições de 1910 condenou o militarismo como um atentado aos princípios basilares da República. Sobretudo agora, quando as Forças Armadas do Brasil acham-se pacificadas e coesas.

O cerimonial primeiro do 21 de Abril conduzia a uma série de atos no interior do Museu da Inconfidência, exatamente nos locais em que se enfatizam a cultura urbana do ouro, o sonho visionário, a articulação da conjura, a fidelidade à causa da liberdade, o suplício dos condenados, o martírio do herói e o legado cívico à nação.

O Tiradentes era Alferes de Cavalaria, integrante da Tropa Paga de Minas Gerais, cujo comandante, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, sobrinho do grande Gomes Freire de Andrade, achava-se também na linha de frente da conspiração. Joaquim Silvério dos Reis, o traidor, era coronel comandante do Regimento da Borda do Campo. Ao lado dos oficiais, advogados e poetas como Tomás Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto participaram do movimento. Civis e militares uniram-se pelos ideais da soberania do Brasil e da liberdade do povo, e é esse ensinamento que o Museu da Inconfidência oferece a cerca de 360 mil pessoas por ano, pelo que pode ser reconhecido como a escola cívico-militante que um educador autêntico poderia conceber.

Ao percorrer o Museu da Inconfidência, o espectador irá reconhecer, no militar rebelado e no militar traidor, tudo aquilo que nos leva à admiração pelo Tiradentes e à repulsa diante do denunciador Silvério dos Reis. O alferes foi torturado e morto; o coronel, um Judas de farda, aquinhoado com ricas recompensas.  Gonzaga, Cláudio e Alvarenga ensinam que a poesia e as leis são imprescindíveis e inseparáveis, pois não há res publica verdadeira sem liberdade, nem liberdade sem criação artística. Ética e estética se irmanam na pátria desejada.

 

Senhor Governador do Estado,

Que escola mais potente que essa para formar as cidadãs e os cidadãos conscientes de que Minas e o Brasil tanto necessitam? Para que a aula seja adequadamente ministrada, necessário se impõe que a sua pedagogia se estenda pelas vastidões do Estado, fazendo da escola mineira um modelo para a formação cívica e cultural de cada geração. Uma escola cívico-militante, não militarista, como pregava a campanha civilista de Rui Barbosa.

Na noite de 19 de fevereiro de 1910, na Casa da Ópera de Ouro Preto, tomada por uma multidão, Rui arrematou o longo discurso de candidato a presidente do Brasil, afirmando que o militarismo seria vencido na sua soberba pela dignidade mineira, “o açoite de Deus”. Para ele, o povo mineiro é “irredutivelmente amigo da paz, tradicionalmente devotado à liberdade, eminentemente hostil ao militarismo”.

Nos primórdios da República, as escolas construídas em Minas Gerais, território povoado de igrejas barrocas, dotavam-se de imponente arquitetura, nas variantes do estilo eclético. Queriam simbolizar, na linha do pensamento positivista de Auguste Comte, que o verdadeiro templo estava nas naves que abrigavam salas de aula, não altares religiosos. Notável semeador de escolas, o então presidente do Estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, aliou à edificação de prédios vistosos o empenho do governo em iluminar as bases do ensino, com uma professora da qualidade da pedagoga Helena Antipoff. E quis sublinhar a Inconfidência como fonte da mineiridade e do compromisso de Minas com a liberdade e a democracia, ao editar o livro de Lúcio dos Santos e erigir o monumento da Praça da Estação, em Belo Horizonte, no qual mandou inscrever em latim: “Montani semper liberi”. Os montanheses serão sempre livres.

 

Senhoras e Senhores Agraciados com a Medalha da Inconfidência,

Acaba de ser confirmada, pelos peritos grafotécnicos da Polícia Federal, a prova mais contundente do compromisso republicano e democrático do Tiradentes. Os manuscritos constantes do exemplar da “Recolha das Leis Constitutivas dos Estados Unidos da América”, publicado em francês, na Suíça, e entregue pelo embaixador norte-americano na França de Luís XVI, Thomas Jefferson, a três representantes de Minas Gerais, na cidade francesa de Nîmes, em 1788, são da autoria do animoso Alferes, como o chamou a poeta Cecília Meireles. O diretor do Museu da Inconfidência, professor Alex Calheiros, obteve o laudo pericial da Polícia Federal.

Tiradentes empenhou-se em compreender o texto em língua que não dominava, mas cuidou de decifrar, e a partir das primeiras leis americanas – hoje tão afrontadas pelo próprio governo de Washington – saiu a apregoar pelos caminhos de Minas o sonho da liberdade e a meta da república baseada numa constituição soberana.

Graças a mais uma estratégia admirável de José Aparecido de Oliveira, o maior mineiro do mundo, segundo Ziraldo, o governador de Santa Catarina, Espiridião Amin, amparado no seu espírito de cidadão brasileiro, veio a Ouro Preto, em 21 de abril de 1984, entregar ao governador Tancredo Neves, esse livro-documento da Inconfidência. Apreendido na algibeira do Tiradentes, no momento de sua prisão, no Rio de Janeiro, em 1789, o livro foi parar na Biblioteca Pública da cidade de Desterro, como então se chamava Florianópolis, a certa altura do século XIX, por iniciativa de um diretor do Arquivo Nacional. José Aparecido e Espiridião Amin permitiram que Tancredo Neves confiasse ao Museu da Inconfidência essa relíquia, que hoje a todos evidencia e testemunha a fonte ideológica do revolucionário Tiradentes.

 

Senhoras e Senhores, Povo de Ouro Preto,

Por que desmaias, formosa Província? – a célebre pergunta do poeta Francisco Otaviano a uma Minas cambaleante, faz-se de novo ouvir. Como reverter o declínio e restaurar as antigas louvações que apresentavam Minas Gerais como referência singular na construção do Brasil?

A educação das novas gerações precisa iluminar a consciência crítica e fomentar nos jovens o compromisso da cidadania, para que possam reconquistar a realidade confundida na telinha dos aparelhos celulares. Minas Gerais não pode ficar à deriva nos caminhos da história pelo apagamento do protagonismo com que soube exercer-se na vida pública brasileira. A arte política não é marcial, senão intelectual, arte de pensar para servir, pensar para acolher e avançar, servir para evoluir e lutar pela fraternidade e a concórdia.

Em trecho da história mundial em que a ignorância, a radicalização extremada, a estupidez, as lideranças caricatas e o vício lucrativo das guerras tentam teleguiar as mentes pelo controle dos detentores do arbítrio, celebrar o Tiradentes é convocar todas e todos para a missão maior da gente mineira na salvaguarda da democracia, da liberdade, da justiça e da paz.

Que jamais se apague a chama que Ouro Preto acende no coração do Brasil e que Minas Gerais percorra, com serenidade e determinação, o caminho que nos desvia das trevas e nos conduz aos raios fúlgidos de um tempo feliz para a sociedade brasileira pacificada e fraterna. 

Muito obrigado.

 


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Data de publicação: 22/04/2026

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