Notícia publicada em 07/02/2024
por Nízea Coelho
A Gruta Nossa Senhora da Conceição da Lapa, situada a 26 km de Ouro Preto, é mais do que um ponto de fé, é um monumento que carrega consigo séculos de devoção, misticismo e histórias que transcendem gerações.
Descoberta e Devoção:
Duas histórias, uma em 1722 e outra em 1767, destacam-se na tradição oral. Na primeira, crianças viram um coelho entrar na caverna, e na segunda, um jovem seguiu um coelho e se deparou com a imagem sagrada. Em ambas, a imagem retorna misteriosamente à gruta, resultando na construção de um altar dedicado à Nossa Senhora da Conceição da Lapa.
Desde então, a Gruta tornou-se um dos destinos religiosos mais importantes da região, atraindo entre dez a quinze mil pessoas no mês de agosto, durante a festa religiosa.
300 anos de fé
O distrito de Antônio Pereira, fundado no final do século XVII por Antônio Pereira, celebrou em 2023 três séculos de devoção à Nossa Senhora da Lapa. Em 1722, na gruta no alto de uma montanha que domina a paisagem urbana de Antônio Pereira, iniciou-se a devoção à santa, originando o Jubileu em 2023 que atrai milhares de fiéis.
A estrada histórica que liga a sede ao distrito, conhecida como "Estrada da Purificação", testemunhou a passagem de romeiros e peregrinos em busca do Santuário da Lapa. A festa em 2023, iniciada em 31 de julho, culminou no dia 15 de agosto, dia dedicado à padroeira, com uma missa presidida por Dom Barroso.
Preservação e Compromisso Ambiental:
Com a crescente devoção e o aumento do turismo religioso, a Gruta enfrenta desafios ambientais. Para equilibrar a preservação natural com a devoção fervorosa, a Prefeitura de Ouro Preto, em 2021, sancionou decretos criando um conselho consultivo e estabelecendo parcerias estratégicas.
A recente assinatura de acordos entre a empresa Samarco Mineração, a Diocese de Mariana e a Prefeitura representa um marco significativo. Além de garantir a compensação espeleológica, esses acordos visam a construção de um portal de entrada, cercamento da área, revisão do Plano de Manejo e instalação de biodigestores para o tratamento do esgoto local.
Relevo Acentuado e Curso de Água
O relevo da área do Monumento Natural da Gruta Nossa Senhora da Lapa é um espetáculo à parte. Desde superfícies antropicamente aplainadas, onde um campo de futebol e uma quadra desportiva foram construídos, até declividades que atingem até 75 graus, a paisagem varia de montanhosa e escarpada a uma curta distância de quinhentos metros. Um curso de água, nascido na parte mais elevada da área, atravessa-a com direção nordeste-sudoeste, proporcionando uma característica pitoresca e desaguando no córrego Água Limpa.
Desafios Ambientais e a Busca pela Preservação
Apesar da riqueza cultural e espiritual, a área enfrenta desafios ambientais consideráveis. Em 31 de agosto de 1993, o Parque Municipal "Nossa Senhora da Lapa" foi criado pela Lei n° 75, mas a delimitação do perímetro nunca foi estabelecida. Com cerca de 20 hectares e pertencendo à Paróquia Sagrado Coração de Jesus, a constante visitação de turistas e romeiros tem acelerado a degradação, especialmente das galerias no interior da gruta.
A necessidade de preservação é urgente, considerando a importância da área para a biodiversidade, a história local e a cultura. A proposta de categorizar a área como “Monumento Natural”, de acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, surge como uma solução viável. Essa categoria, de proteção integral, busca preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica.
Gestão Compartilhada para o Futuro Sustentável
A gestão compartilhada entre a Prefeitura Municipal de Ouro Preto e a Paróquia Sagrado Coração de Jesus é uma estratégia para garantir a conservação da Gruta Nossa Senhora da Conceição da Lapa. Essa abordagem visa conciliar a preservação do patrimônio natural e cultural com as atividades desenvolvidas pela paróquia. O envolvimento da comunidade, órgãos governamentais e parceiros é crucial para o sucesso desse esforço conjunto, garantindo a utilização sustentável do ambiente para as atuais e futuras gerações.
Texto: Maria Eduarda Gomes / Revisão: Victor Stutz